Crise? Que Crise?

25 de ago de 2014

Muita gente vem pra cá e comenta: impossível que vocês estão em crise! Todo mundo sai, todo mundo vive comendo fora, indo à teatros, cinemas, etc. Não sei onde tem crise.

Desde que o mundo é mundo, argentinos são boêmios. Amam sair para ir à cafés, restaurantes, bares, ler um livro em alguma casa de chá e ficar vagando por horas. Essa cultura, sabemos todos, não é compartilhada no Brasil. No Brasil comer fora é caro, aqui - se você souber sair - não é. Dou um exemplo simples: sair para comer bem no Brasil não sai por menos de 100 reais por pessoa, correto? Não estou falando aqui de restaurantes caríssimos, mas de uma comida ok e tampouco falo de self-services e etc. Aqui em Buenos você consegue comer fora por 150 pesos e bem, super bem.

Ir a um café aqui não é sinônimo de comer horrores tampouco. Você pode muito bem, se sentar, pedir um expresso e ficar 3h. Vai gastar meros 30 pesos em média. No Brasil, parece que você simplesmente não pode se sentar e pedir algo para beber que o garçom vem a cada cinco minutos perguntar se quer algo mais. Brasileiro também não tem esse costume de sentar e ler algo, logo quando sai para um café ou algo do estilo é para comer de qualquer maneira. Todo mundo concorda, né?

Pois bem. Ir ao mercado no Brasil não é tão caro como ir ao mercado aqui. Verdade. Mesmo quando eu vou para São Paulo, e vou ao super comprar coisinhas básicas para comer durante a semana, gasto uns 100 reais no máximo, nem isso quase. Aqui em Buenos eu não saio do mercado gastando menos de 500 pesos. E se eu vou na quitanda comprar frutas e verduras, lá se vão mais 100, 100 e poucos.

Em linhas gerais, turista acha que não tem crise porque vê muita gente nas ruas, comendo fora, indo à cinemas e teatros e cafés. Vejamos: em uma economia que há tanta inflação e desvalorização da moeda, guardar dinheiro não é lucro. Não é. Se sobram uns pesitos na conta, povo vai gastar. Se você come fora uma vez por semana, pelo menos, vai gastar no mês algo em torno de 600 a 800 pesos (em média, pode-se gastar menos ou mais). Não é muito dinheiro, comparado ao Brasil. Ou seja, pessoal aqui sempre saiu e ainda que comer fora tenha aumentado muito nos últimos anos, continua sendo barato.

A crise está na quantidade de pessoas que saem. É verídico que a quantidade de gente que você vê nas ruas agora comendo fora é menor do que antigamente. Pense que antes, um público muito maior saía para comer. E parte das pessoas que você vê comendo fora podem não ser locais. Já parou para pensar quantos turistas vem para Buenos Aires? Quantas pessoas de fora moram aqui? Inúmeras.

O porteño mesmo já não sai com a mesma frequência de antes. Ao invés de fazer um esquenta em um bar, compra para fazer em casa que sai muito mais barato. Vai ao mercado em dias de promo do cartão de crédito. A Freddo mesmo, começou a distribuir 2x1 no quilo do sorvete quando se faz compras no mercado. Agora você vai a sorveteria e tá cheia. Garanto que 70% das pessoas estão com esse cupom. Ou, por exemplo, carteira de descontos de jornais e cupons de outros lugares. Porteño está abusando mesmo dessas promos. Porteño também sai para comer fora, mas não pede entrada, prato principal e sobremesa. Aliás, foram raras as vezes que eu sai com argentinos nas quais pedimos entrada e sobremesa. Quase nunca. É sempre vinho, água e principal. Ou em um café, é quase sempre pedido um café mesmo e acabou. Uma medialuna aqui e outra ali, pode ser. As contas não ficam absurdamente caras.

De qualquer maneira, matérias de vários jornais apontam a quantidade de locais gastronômicos que fecharam no decorrer do ano na cidade: 45%. Em torno de 350 lugares de comida entre restaurantes, cafés, bares, etc. É MUITA coisa, gente, MUITA. Sábado mesmo fui passear em umas ruazinhas perto de casa e 3 lugares fecharam: Leopoldo (que eu fiz post faz pouco), Voulez Patisserie e uma casinha que vendia comidinhas caseiras para levar. É bem triste. O Experiencia del Fin del Mundo em Palermo Hollywood foi outro que fechou. Comércios fecham na mesma medida.

A crise está nisso, e também na baixa de lugares que já não aceitam mais cartões de crédito e/ ou débito como forma de pagamento: o lapso de tempo que o pagamento leva para cair na conta do restaurante é grande, e isso faz com o que o preço da comida seja maior na hora que a grana cai, fazendo então o lucro diminuir. É certo que muitos lugares fazem lavagem de dinheiro também, infelizmente.

Onde se aceita cartão, porteño tá passando. Se pode dividir, melhor ainda. Mesmo havendo dinheiro na conta para pagar: se algo, por exemplo, é dividido em várias parcelas a mesma inflação no lapso determinado de tempo vai cobrir a dívida restante. É isso.

Enfim, a crise está em outros vários setores. E o fato de restaurantes e bares estarem cheios não quer dizer que não há.

3 comentários

  1. Saudades do el ultimo beso....cafés .

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  2. É verdade Amanda. Meus amigos argentinos falam isso: Não podemos juntar para comprar um apartamento e agora não podemos juntar nem para viajar, o que sobra se gasta e principalmente nessas coisas: cinema, cena e teatro! A crise fica escondida, mas nem tanto assim. Essa semana mostrou no Jornal Nacional, exatamente isso: restaurantes e casas de comida que fecharam as portas, primeiro pela queda do público e segundo pela "não entrada" dos produtos básicos, principalmente açucar e extrato de tomate. Eu voltei pro Brasil em janeiro de 2013. Já estava começando a crise. Morei em São Paulo, nos jardins, e ficava bobo como o preço em supermercados nos Jardins era absurdamente mais barato que em Buenos Aires ou no Rio, de onde sou. Restaurantes em SP, se vc buscar encontrar bons preços também. O Rio já é bem mais caro. Em Baires eu gastava no Coto, exatamente 1200 pesos, e não chegava ao fim do mês. Em São Paulo, gasto 350 reais. É outra realidade. Eu volto em dezembro para Baires, mesmo em crise, porque acho que minha área é melhor lá. SP é melhor, mas eu não me adaptei com o dia-a-dia, apesar de ser extremamente organizada ( pelo menos na zona dos Jardins) e pensar em work, o que é bom! O Rio, tem a praia, a delicia do mar, mas trabalho na área são outros 500. Meu maior receio é que se em 2012 eu gastava 1200 pesos, agora vou gastar quanto? E olha que nem como muito! kkk Sempre leio seu blog! Espero conhece-la pessoalmente! Todo mundo me pede para fazer um Blog, Buenos Aires para Gays. Quem sabe vc não me ajuda! Beijos Danilo

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